A Grande Quimera Contemporânea

A China contemporânea costuma ser apresentada como a grande prova de que o comunismo “funciona”. Um país que cresceu e hoje exporta, domina cadeias produtivas e “desafia” o Ocidente. No entanto, essa leitura é superficial. A China não é propriamente comunista ou socialista. Ela é uma construção histórica singular, uma verdadeira quimera sociopolítica e econômica, que só pode ser compreendida à luz de sua tradição imperial, de sua psicologia coletiva e das rupturas mal resolvidas de sua história.

Chave Histórica

Para entender isso, é necessário voltar ao período final da dinastia Qing, governada pelos manchus. Durante séculos, a China foi estruturada como um império centralizado, vasto, hierárquico e profundamente enraizado em uma cultura de obediência à autoridade. A figura do imperador não era apenas política, mas quase metafísica: ele era o mediador entre o Céu e a Terra. Essa estrutura moldou a mentalidade chinesa ao longo de gerações, uma mentalidade orientada à ordem, à estabilidade e à submissão a um poder central forte que ditava os rumos da nação.

No final do século XIX e início do século XX, esse sistema começou a ruir diante das pressões internas e externas: derrotas militares, crises econômicas e influência estrangeira.

Yuan Shikai

Nesse contexto emergem duas figuras-chave Yuan Shikai, que trabalhava dentro da monarquia[1] e Sun Yat-sen, com os novos ideais republicanos. Eles representam o ponto exato onde o velho império tenta se transformar sem deixar de ser ele mesmo.

Sun Yat-sen, havia a intenção de instaurar o regime republicano, inspirado em modelos ocidentais de constituição e representação política.

Sun Yat-sen

Contudo, essa tentativa já nasce comprometida. Sun não possuía força militar suficiente para sustentar a revolução e, por isso, dependeu de um acordo com Yuan Shikai, o general mais poderoso do país.

Esse acordo é decisivo: Sun abre mão do poder em favor de Yuan, esperando que ele consolide a república; Yuan, por sua vez, aceita formalmente o novo regime, mas apenas como meio para assumir o controle. Ou seja, a república não nasce de uma ruptura real com o antigo sistema, mas de uma negociação com ele.

Yuan foi quem negociou a abdicação do último imperador, Puyi (com apenas 6 anos), encerrando formalmente mais de dois mil anos de monarquia.

Uma vez no poder, Yuan rapidamente revela sua verdadeira orientação: enfraquece o parlamento, elimina opositores, dissolve instituições e concentra autoridade em si mesmo. Incapaz, ou desinteressado, de governar dentro de uma lógica republicana, ele segue o caminho que lhe é natural e, em pouco tempo, chega ao ponto de se proclamar imperador.

Esse episódio não é um desvio acidental, mas uma revelação estrutural. Ele mostra que, embora a forma republicana tenha sido adotada, o princípio que organizava o poder na China continuava sendo imperial. O imperador desaparece como figura, mas a lógica do império permanece intacta.

Pu Yi (Último Imperador da China) Antes e depois da "reeducação" Republicana e Comunista

Com a morte de Yuan, a China mergulha no caos dos senhores da guerra. O território se fragmenta, e o poder central praticamente desaparece. É nesse cenário que surgem duas forças principais: os nacionalistas republicanos, liderados por Chiang Kai-shek (Taiwan), e os comunistas, liderados por Mao Tsé-Tung (China Continental).

Chiang Kai Shek (à esquerda) e Mao Tse Tung (à direita)

Ambos deram às mãos para vencer a guerra contra o Japão, mas os comunistas, conforme ganhavam, iam assentando suas lideranças nos locais. A guerra civil entre esses grupos então começa após a derrota do Japão e culmina na vitória comunista em 1949. Os nacionalistas recuam para Taiwan, onde mantêm uma versão da República da China. Já no continente, Mao estabelece o regime comunista, que posteriormente conduzirá eventos como a Revolução Cultural (1966-1976), uma tentativa radical de destruir tradições e consolidar o poder ideológico.

Chave Ideológica

Mas aqui está o ponto central: o regime que emerge sob Mao, e que evolui até a China atual, não é, em essência, comunista no sentido clássico. Ele não aboliu completamente as estruturas de poder centralizado; pelo contrário, as intensificou. O Partido Comunista Chinês passou a funcionar como uma nova “corte imperial” para a mentalidade do chinês.

A lógica permanece a mesma: Um centro absoluto de poder, controle rígido da sociedade, supressão de dissidência, legitimação baseada na estabilidade e prosperidade, conforme era no paganismo chinês[2].

Os 120 mártires da China

A diferença é apenas ideológica na superfície. A corte imperial foi substituído pelo Partido.

Com as reformas econômicas posteriores, especialmente após a era Mao, a China incorpora mecanismos de mercado, abrindo espaço para uma economia altamente produtiva e, em muitos aspectos, capitalista. Surge então a contradição aparente: um Estado politicamente totalitário operando com práticas econômicas capitalistas.

Mas essa contradição só existe do ponto de vista teórico. Historicamente, ela é coerente. A China não abandonou seu modelo civilizacional; apenas o adaptou.

O que temos hoje é um imperialismo ideologicamente comunista, sustentado por princípios capitalistas em suas atividades econômicas, com um ideal tecnocrático.

Essa estrutura explica também a posição da China no cenário global. O país se tornou o centro manufatureiro do mundo, dominando cadeias produtivas e oferecendo produtos em larga escala. Durante décadas, carregou a imagem de produtor de bens baratos e de baixa qualidade, mas gradualmente consolidou sua posição estratégica.

No entanto, essa posição contém uma fragilidade intrínseca. A China depende do consumo externo. Sua força produtiva exige mercados. Isso cria uma relação de interdependência: o mundo depende da China para produzir, mas a China depende do mundo para consumir.

E mesmo que alguns argumentem que ela possui seu mercado interno, produzir apenas para ele e entrar num modo protecionista exigiria que os outros países se reindustrializassem, o que ela não quer, pois perderia sua ambiciosa vantagem construída com destreza e silêncio durante todas essas décadas pós-Segunda Guerra.

É uma relação de faca de dois gumes.

Se por um lado a China detém grande parte da capacidade industrial global, por outro ela não pode se sustentar isoladamente. Seu poder não é absoluto; é relacional.

Portanto, a ideia de que “o comunismo chinês funciona” é, na melhor das hipóteses, uma simplificação grosseira. O que funciona não é o comunismo, mas uma estrutura híbrida profundamente enraizada na tradição imperial chinesa. Um sistema que combina: Autoridade central absoluta (herança imperial), controle ideológico (revestimento comunista) e pragmatismo econômico (instrumentos capitalistas).

A China não é um modelo replicável. Ela é o laboratório do mundo, um ambiente de experimentação político-econômica sob controle centralizado, devido a anatomia psicológica e histórica do povo chinês.

A China é uma exceção histórica nesse sentido. Uma verdadeira quimera contemporânea e compreendê-la exige abandonar rótulos ideológicos simplistas e encarar o fato essencial: o que governa a China hoje não é uma revolução bem-sucedida, é a continuidade, sob novas formas, de um império que nunca deixou de existir na psicologia de um povo e Taiwan[3] sabe muito bem disso…

[1] Serviu como Primeiro-ministro do Gabinete Imperial Chinês.

[2] Como a maioria dos países orientais, a China pelo seu orgulho sempre foi muito resistente aos missionários cristãos. Um dos que com sucesso conseguiu conquistar o coração desse povo foram os jesuítas, em particular Matteo Ricci (1552-1610), tornando-se tão chinês e adaptando tão bem os conceitos de origem cultural chines com a teologia cristã que despertou inveja e críticas dos Dominicanos que não entendiam as nuances finas do que ele estava fazendo.

[3] Taiwan é a conciliação entre a herança chinesa com a democracia republicana ocidental, o que explica parte da tensão existencial entre a ilha e o continente.

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