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Monte Saint-Michel: A Fortaleza da Contra-Revolução

A impressão mítica que temos ao contemplar o Monte Saint-Michel, não está apenas na imponência de sua apresentação, mas nos imponderáveis de sua história.
Localizado em uma baía flanqueada pelas regiões da Normandia e da Bretanha, o Monte Saint- Michel emerge da água como uma Atlântida francesa quando a maré sobe. Esta está conectada a terra firme apenas por um istmo de areia; Ele é um tômbolo nas estiagens e uma ilha flutuante nas marés altas. 
Aparição de São Miguel Arcanjo
No final do século V, com o cristianismo se espalhando pela Bretanha e pela Normandia, Avranches tornou-se sede episcopal e eremitas piedosos ergueram dois oratórios no até então chamado Monte Tombe.
No ano 704, o bispo de Avranches, Aubert, conhecido pela sua santidade, teve uma visão de São Miguel durante a noite; o arcanjo ordenou-lhe que construísse um templo em sua homenagem no Monte Tombe. Mais duas vezes o arcanjo veio lembrar a Santo Aubert seu desejo e, colocando um dedo em sua cabeça, deixou ali uma marca profunda. O crânio de Santo Aubert, preservado em Avranches, traz esta marca e pode ser venerado na capela feita em sua homenagem.
 
Aparição de São Miguel a Santo Aubert
O crânio de Santo Aubert
A Construção
Saint Aubert não hesitou mais e a construção começou por achatar o cume da montanha e livrá-lo das pedras inconvenientes. Numa delas ainda se pode ver uma capela dedicada a Santo Aubert, na base do monte (justamente onde está a relíquia de seu crânio perfurado pelo dedo de São Miguel).
Durante a construção do santuário, dois cônegos foram enviados para buscar as relíquias de São Miguel, incluindo um pedaço de sua capa vermelha e um pedaço de mármore pisado pelo arcanjo.
Concluída esta obra, foi construída a primeira igreja, em forma de rotunda, e Monte Tombe passou a ser denominado Monte Saint-Michel.
Capela de Santo Aubert no Monte Saint-Michel
A Primeira Igreja construída sobre o Monte Tombe
Os monges do Monte Saint-Michel
Perto da igreja, Santo Aubert fundou uma abadia. A missão dos monges era guardar o novo santuário e acolher os peregrinos que já ali afluíam.
Foram eles que, arquitetos admiráveis, completaram a obra de Santo Aubert, levantando O grandioso edifício que ainda permanece.
Assim que o primeiro santuário foi concluído, foram organizadas peregrinações de todas as partes da França e até do exterior.
Quase todos os reis de França vieram ao Monte e enriqueceram o santuário com os seus presentes.
São Miguel foi nomeado a partir de então o arcanjo e protetor da França-católica.
Fortaleza impenetrável
Os monges fizeram do Monte Saint-Michel uma fortaleza inexpugnável. Esta reputação foi tão bem adquirida que, tendo de ir à guerra em Espanha, o condestável Bertrand Du Guesclin colocou ali a sua esposa Tiphaine em segurança. Mais tarde, o bispo de Avranches mandou trazer para lá os objetos preciosos da sua igreja, para protegê-los da pilhagem dos ingleses, durante a guerra dos cem anos (1337-1453).
Na pequena cidadela chamada “le Châtelet”, a resistência foi heroica; os ataques ocorreram contra suas muralhas. Para prestar homenagem a esta lealdade corajosa, os reis de França decidiram que o próprio abade do mosteiro seria o capitão do lugar.
Mais tarde, durante as guerras religiosas, o Monte Saint-Michel, várias vezes sitiado pelos protestantes, resistiu a todos os ataques, simbolizando em certo sentido a promessa de Cristo à sua santa Igreja: “E as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt. 16:18).
Profanação e Restauração do Santuário
Durante a turbulência revolucionária da Revolução Francesa, os monges foram expulsos e se utilizou a abadia como prisão para resistentes, uma casa de correção aos ideais anti-cristãos…
O romancista e senador francês Victor Hugo foi uma figura-chave na promoção do fechamento da prisão (e a restauração do espírito francês através da literatura).
Em sua carta, escrita em 27 de junho de 1836, a partir de Monte Saint-Michel à poetisa Louise Bertin, Victor Hugo se expressa nos seguintes termos: “Ao nosso redor, em todos os lugares até onde a vista alcança, o espaço infinito, o horizonte azul do mar, o horizonte verde da terra, as nuvens, o ar, a liberdade, os pássaros voando com todas as asas, […] E então, de repente, lá, no topo de um antigo muro, sobre nossas cabeças, através de uma janela gradeada, surgia o rosto pálido de um prisioneiro. Nunca senti mais intensamente do que aqui as cruéis antíteses que o homem às vezes cria com a natureza”.
A reabilitação do Monte Saint-Michel começou em 1922, e as peregrinações foram retomadas em 1966 por ocasião do milênio da abadia. Os monges beneditinos reocuparam as salas de oração, e em 2001, os monges e as irmãs da Fraternidade Monástica de Jerusalém assumiram a gestão. O Estado francês, como proprietário do local, ficou responsável pelas restaurações
Monges da Abadia do Monte Saint-Michel
Terminal de travesia entre Pontorson e o Monte Saint-Michael - Cartão postal (1910)
Em nossos dias
Hoje, o admirável edifício foi restaurado de forma inteligente e aberto para visitação.
Classificados como monumentos históricos desde 1862, o Monte Saint-Michel e a sua baía tornaram-se Patrimônio Mundial da UNESCO em 1979. Embora tenha se tornado um destino turístico popular, o Monte Saint-Michel já não é mais um ponto de peregrinação nem a morada dos monges de outrora…
São Miguel, o primeiro Contra-Revolucionário
O templo pode ter-se esvaziado da fé, mas as pedras clamam sua memória! 
No píncaro da agulha do Monte está São Miguel rasgando os céus, simbolizando seu brado feito no Céu contra o orgulho e a sensualidade de Satanás: “Quem como Deus?!!”.
Do “sim” de Maria nasceu o Salvador, do “sim” de São Miguel, nasceu a Contra-Revolução, os filhos da Virgem, os apoiadores da hierarquia, os amantes da pureza! 
Desse modo o Monte Saint-Michel não é apenas uma construção, mas este aspecto simbólico para toda a Cristandade, tanto hoje quanto para a posteridade!
Emmanuel Frémiet e a Imagem de São Miguel
Emmanuel Frémiet, renomado escultor francês nascido em Paris em 6 de dezembro de 1824.
Sob a tutela de sua tia Sophie Frémiet e posteriormente do escultor François Rude, Frémiet desenvolveu uma carreira prolífica, dedicando-se principalmente à escultura de animais.
Destacando-se no cenário artístico, Frémiet participou ativamente no Salão de Paris, exibindo sua maestria desde tenra idade. Sua habilidade singular o levou a realizar obras notáveis, incluindo a estátua equestre de Napoleão I, a impressionante escultura de Joana d’Arc em Paris, e, notavelmente, a estátua de São Miguel no Monte Saint-Michel.
A estátua de São Miguel, uma das criações mais emblemáticas de Frémiet, ergue-se majestosamente no Monte Saint-Michel, testemunhando sua maestria na representação de figuras angelicais. Esta obra, esculpida com precisão e detalhes vívidos, adiciona uma dimensão espiritual ao impressionante cenário do Monte Saint-Michel, consolidando a posição de Frémiet como um dos escultores mais eminentes de sua época.
Em reconhecimento ao seu talento excepcional, Frémiet foi nomeado Oficial da Legião de Honra Francesa em 1878 e tornou-se membro da Académie des Beaux-Arts em 1892. Além de suas notáveis estátuas equestres e esculturas de animais, a representação sublime de São Miguel no Monte Saint-Michel perpetua o legado duradouro de Emmanuel Frémiet na história da escultura.
A oração escrita pelo condestável Bertrand Du Guesclin
Mencionamos este personagem em nosso texto (De haver deixado a esposa Tiphaine na fortaleza do Monte Saint-Michel), mas vale colocar aqui a oração em honra ao rei São Luis IX, escrita pelo condestável, a próprio punho, para transparecer o verdadeiro espírito católico do povo francês, oposto ao espírito revolucionário da contemporaneidade herdado da Revolução Francesa:
Oração a São Luís IX
Do Condestável Bertrand Du Guesclin,
Ó Rei, que enviastes os seus melhores cavaleiros para explorar na vanguarda do exército cristão, dignai-vos lembrar deste filho da França que gostaria de subir ao seu nível para melhor servir ao Senhor Deus e à Santa Senhora, que é a Igreja.
Dai-me mais horror ao pecado mortal do que teve Joinville, mesmo ele tendo sido um cristão exemplar, e guardai-me puro como os lírios (flores de liz) do vosso brasão.
Vós que mantendes vossa palavra, mesmo dada a um infiel, fazei com que nenhuma mentira passe pela minha boca, ainda que a franqueza me custe a vida.
Varonil (homem de proezas), incapaz de recuos, corte as pontes de minhas pretensões e deixe-me caminhar sempre para o ponto mais duro do combate.
Ó nobre dos nobres barões franceses, inspirai-me a desprezar os pensamentos dos homens e dai-me o gosto de me comprometer e me persignar (consagrar) pela honra de Cristo.
Por fim, Príncipe, Príncipe de grande coração, não permitais que eu seja jamais medíocre, mesquinho ou vulgar, mas compartilhai comigo o vosso coração real, e fazei com que, à vossa imagem, eu sirva à maneira francesa, regiamente.
Assim seja.
Original em Francês:
Oração a São Luís IX
Do Condestável Bertrand Du Guesclin
Sire le Roi, qui envoyiez vos plus beaux chevaliers en escoutes à la pointe de l’armée chrétienne, daignez vous souvenir d’un fils de France qui voudrait se hausser jusqu’à vous pour mieux servir sire Dieu et dame sainte Église. Donnez-moi du péché mortel plus d’horreur que n’en eut Joinville qui pourtant fut bon chrétien, et gardez-moi pur comme les lys de votre blason. Vous qui teniez votre parole, même donnée à un infidèle, faites que jamais mensonge ne passe ma gorge, dût franchise me coûter la vie. Preux inhabile aux reculades, coupez les ponts à mes feintises, et que je marche toujours au plus dru. O le plus fier des barons français, inspirez-moi de mépriser les pensées des hommes et donnez-moi le goût de me compromettre et de me croiser pour l’honneur du Christ. Enfin, Prince, Prince au grand cœur, ne per- mettez pas que je sois jamais médiocre, mes- quin ou vulgaire, mais partagez-moi votre cœur royal et faites qu’à votre exemple je serve à la française, royalement. Ainsi soit-il.
Tradução literal para o Português:

Oração a São Luís IX

Do Condestável Bertrand Du Guesclin,

Ó Senhor Rei, que enviáveis os vossos melhores cavaleiros como exploradores na vanguarda do exército cristão, dignai-vos lembrar de um filho da França que quereria alçar-se até vós para melhor servir ao Senhor Deus e à Santa Senhora Igreja.
Dai-me do pecado mortal ainda mais horror do que teve Joinville, que entretanto foi bom cristão, e conservai-me puro como os lírios (flores de liz) do vosso brasão.
Vós que mantínheis vossa palavra, mesmo dada a um infiel, fazei que jamais mentira alguma passe pela minha garganta, ainda que a franqueza me custasse a vida.
Varonil (homem de proezas), incapaz de retiradas, cortai os laços dos meus fingimentos, e que eu caminhe sempre rumo ao mais árduo.
Ó o mais ufano dos barões franceses, inspirai-me a desprezar os pensamentos dos homens e dai-me o gosto de me comprometer e me cruzar pela honra de Cristo.
Por fim, Príncipe, Príncipe de grande coração, não permitais que eu seja jamais medíocre, mesquinho ou vulgar, mas compartilhai comigo o vosso coração real, e fazei com que, seguindo vosso exemplo, eu sirva à maneira francesa, regiamente.
Assim seja.